Nutrição para ultramaratonistas: o que comer antes, durante e depois
Nutrição para ultramaratonistas: o que comer antes, durante e depois
Ultramaratonas não são apenas um teste de pernas e pulmão. São, antes de tudo, um desafio metabólico. Quando o atleta passa de algumas horas em movimento, em distâncias que vão de 50 km até mais de 160 km, o corpo começa a consumir estoques internos de energia em uma velocidade que poucos esportes alcançam. É aí que entra a nutrição para ultramaratonistas: não como detalhe, mas como peça central do planejamento.
A grande verdade é que treinar forte sem uma estratégia alimentar inteligente é como encher o tanque de um carro de corrida com combustível comum. O motor até aguenta, mas a performance cai, a fadiga aparece antes, e a recuperação fica comprometida. Neste artigo, você vai entender como montar uma base nutricional sólida para provas longas, quais alimentos priorizar em cada fase, e onde a maioria dos atletas iniciantes erra.
Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. Cada corpo responde de um jeito, e o ideal é contar com acompanhamento de um nutricionista esportivo para individualizar a estratégia. Dito isso, vamos ao que interessa.
O que é uma ultramaratona e por que a nutrição muda tudo

Antes de falar de comida, é importante entender o cenário. Uma ultramaratona é qualquer prova de corrida a pé com distância superior à maratona tradicional (42,195 km). As categorias mais comuns incluem:
- 50 km.
- 80 km.
- 100 km.
- 100 milhas (160 km).
- Provas por tempo.
- como as de 24h.
- 48h ou 6h.
O que muda em relação a uma maratona não é só a distância, mas o tempo total de esforço. Enquanto uma maratona pode ser finalizada em 3 a 5 horas para a maioria dos atletas amadores, uma ultramaratona exige de 6 até 24 horas ou mais em movimento contínuo. Esse tempo extra muda completamente a forma como o corpo usa energia.
As três fontes de energia do corredor
Para entender a nutrição para ultramaratonistas, vale revisar rapidamente como o corpo produz energia durante o exercício:
- Carboidratos: a fonte preferida em intensidades moderadas a altas.
- armazenados como glicogênio muscular e hepático.
- Gorduras: a fonte mais abundante.
- mas mais lenta.
- usada com mais intensidade em esforços de baixa a moderada intensidade.
- Proteínas: usadas em menor escala durante o esforço.
- mas fundamentais para preservar e recuperar a massa muscular.
Durante uma prova longa, a estratégia gira em torno de manter os estoques de carboidrato e repor o que está sendo gasto, ao mesmo tempo em que se protege a musculatura e se hidrata de forma eficiente.
Os pilares da nutrição para ultramaratonistas

A nutrição para ultramaratonistas pode ser dividida em quatro pilares práticos. Cada um deles tem papel específico, e ignorar qualquer um deles compromete o rendimento.
Pilar 1: Carboidrato, o combustível principal
O carboidrato é rei nas provas de endurance. Quando os estoques de glicogênio muscular se esgotam, o atleta sente o famoso "bônus", termo usado para descrever a sensação de pernas pesadas, lentidão e desmotivação que aparece geralmente entre 25 km e 35 km em uma maratona, e ainda mais cedo em ultramaratonas se a alimentação não for bem feita.
Para provas acima de 4 horas, a recomendação geral de ingestão de carboidrato durante o esforço fica entre 60 g e 90 g por hora, podendo chegar a 100 g a 120 g por hora em atletas treinados e com o trato gastrointestinal adaptado. Isso é o que a literatura chama de "fuelamento com carboidratos múltiplos transportáveis", basicamente, uma mistura de glicose e frutose que usa vias de absorção diferentes e melhora a taxa total de oxidação.
Pilar 2: Proteína, a proteção muscular
Mesmo durante o esforço, pequenas doses de proteína ajudam a reduzir a degradação muscular e melhoram a recuperação entre blocos de corrida. Em provas muito longas, incluir fontes de proteína de rápida digestão pode ser estratégico, especialmente após as primeiras horas.
Na prática, a recomendação de proteína para ultramaratonistas fica em torno de 1,4 g a 2,0 g por kg de peso corporal por dia, distribuídos ao longo das refeições, com foco em períodos pós-treino.
Pilar 3: Hidratação e eletrólitos
Correr por muitas horas significa suor por muitas horas. E com o suor se vão não apenas água, mas também sódio, potássio, magnésio e cloro. Em provas longas, a desidratação acima de 2% do peso corporal já começa a comprometer a performance e aumentar o risco de problemas gastrointestinais.
A estratégia de hidratação deve considerar:
- Volume de suor individual (calculado em treinos).
- Temperatura e umidade do ambiente.
- Duração da prova.
- Presença de sódio na bebida (essencial para retenção hídrica).
Pilar 4: Micronutrientes e timing
Vitaminas e minerais não fazem barulho, mas fazem falta. Ferro, vitamina D, magnésio e vitaminas do complexo B têm papel direto na produção de energia, na função muscular e na recuperação. Em ultramaratonistas, atenção especial para ferro (devido ao impacto da corrida de impacto sobre a ferritina) e vitamina D (que pode cair em treinos muito cedo ou muito tarde, com pouca exposição solar).
Antes da prova: como carregar a bateria
A preparação alimentar começa dias antes do evento. Não existe milagre na véspera.
2 a 3 dias antes: o carb loading
O carb loading é a estratégia de aumentar o consumo de carboidrato nos dias que antecedem a prova para saturar os estoques de glicogênio muscular. O protocolo clássico, descrito originalmente em estudos da década de 1980, ainda é referência:
- Aumentar a ingestão de carboidrato para 8 g a 12 g por kg de peso corporal por dia.
- Reduzir levemente o volume de treino nesse período.
- Evitar fibras excessivas e gorduras em excesso para reduzir desconforto gastrointestinal.
Na véspera e manhã da prova
Na noite anterior, prefira refeições ricas em carboidrato, moderadas em proteína e com pouca gordura. Macarrão, arroz, batata inglesa, tapioca e panqueca com mel são boas opções. No dia da prova, faça uma refeição leve 2 a 3 horas antes da largada, sempre testada em treinos longos.
Durante a prova: a manutenção em movimento
Aqui está o coração da nutrição para ultramaratonistas. O que você consome durante a prova é o que mantém o corpo funcionando nas últimas horas.
Carboidratos: quantidade e tipo
A recomendação geral segue o que foi descrito acima, com meta de 60 g a 90 g de carboidratos por hora para a maioria dos atletas. Para otimizar a absorção, o ideal é combinar fontes de glicose e frutose em proporção de 2:1.
Algumas opções práticas de carboidrato para uso durante a prova:
- Géis energéticos.
- Gomas de carboidrato.
- Bebidas esportivas (isotônicas ou hipotônicas).
- Banan amassada com mel.
- Batata inglesa cozida com sal.
- Arroz branco frio em pequenas porções.
- Marshmallows e balas de fruta.
- Tapioca ou pão branco com mel.
Sódio e hidratação
A meta de sódio durante provas longas costuma ficar entre 500 mg e 1.500 mg por hora, ajustada conforme a perda de suor individual e a temperatura ambiente. Em locais quentes, a parte alta da faixa é mais segura.
Proteína durante a prova
Em provas com mais de 6 a 8 horas, alguns protocolos incluem pequenos aportes de proteína, em torno de 5 g a 15 g por hora, especialmente em formatos como shakes, caldo de carne ou barrinhas com proteína. Isso ajuda a reduzir a quebra muscular, mas exige cuidado para não sobrecarregar o estômago.
Um exemplo prático de estratégia durante 100 km
Para ilustrar como esses pilares funcionam juntos, veja um exemplo simplificado de estratégia para um atleta de 70 kg em uma prova de 100 km com 12 horas estimadas:
| Bloco | Carboidrato | Sódio | Líquido | Outros |
|---|---|---|---|---|
| Pré-prova (3h antes) | 100 g de carboidrato de baixo índice glicêmico | Refeição normal | 500 mL de água | Café, pouca fibra |
| 0 a 4h | 70 g/h via gels e bebida | 800 mg/h | 500 mL/h | Testar produtos novos, não |
| 4h a 8h | 80 g/h, variar fontes | 1.000 mg/h | 600 mL/h | Incluir caldo de carne |
| 8h a 12h | 60 g a 70 g/h, priorizar o que o corpo aceita | 1.200 mg/h | 500 mL/h | Refrigerante de cola, frutas, sopas |
Esse é apenas um exemplo. Cada prova, cada clima e cada atleta exigem ajustes.
Depois da prova: a recuperação
A janela de recuperação começa nos primeiros 60 minutos após cruzar a linha de chegada. É quando o corpo está mais preparado para absorver nutrientes e iniciar a reparação muscular.
Os três macronutrientes da recuperação, Carboidrato
para reabastecer o glicogênio muscular, na faixa de 1,0 g a 1,2 g por kg nas primeiras 2 horas. Proteína: de alta qualidade e rápida digestão, na faixa de 0,3 g a 0,4 g por kg logo após a prova. Líquido e eletrólitos: repor volume perdido, em geral 1 L a 1,5 L de água para cada kg perdido durante a prova, junto com sódio.
Exemplos de refeições pós-prova
Sopa de miso com tofu e arroz branco, Suco de laranja natural com whey protein, Iogurte natural com banana, mel e aveia, Wrap de frango desfiado com batata doce, Refeição completa com arroz, feijão (se tolerado), carne magra e legumes cozidos
A recuperação que dura dias
A nutrição para ultramaratonistas não termina na primeira refeição pós-prova. Nos 2 a 3 dias seguintes, manter uma ingestão elevada de proteína, moderada de gordura e alta de carboidrato de boa qualidade ajuda a reconstruir estoques e acelerar a reparação muscular. Dormir bem e manter hidratação generosa completam o pacote.
Erros comuns em quem começa nas ultramaratonas
Antes de fechar, vale listar alguns equívocos que aparecem com frequência em estreantes. Reconhecer esses erros já é meio caminho andado para evitá-los.
Erro 1: Testar produtos novos na prova
Esse é o erro clássico e, às vezes, inofensivo, às vezes capaz de estrangular o evento. Nada de gel ou comida que você nunca experimentou deve entrar no plano de prova sem antes ter sido testado em treinos longos.
Erro 2: Comer de menos por medo de dor de estômago
O medo de passar mal faz muitos atletas comerem menos do que precisam. O problema é que, quando o glicogênio acaba, o corpo começa a queimar músculo e gordura de forma ineficiente, e a fadiga aparece com força total. A solução não é comer menos, e sim treinar o estômago com antecedência.
Erro 3: Hidratar com água pura
Em provas longas, especialmente no calor, beber apenas água pode levar à hiponatremia, condição na qual o sódio no sangue cai a níveis perigosos. Por isso, usar bebidas com sódio ou cápsulas de sal é praticamente obrigatório.
Erro 4: Ignorar a recuperação
Cruzar a linha de chegada e simplesmente parar de comer é perder a melhor janela para reconstruir o que foi destruído. Muitos estreantes sentem que, depois de horas comendo, o corpo "pede um descanso" da comida, e é aí que a recuperação fica comprometida.
Erro 5: Não individualizar o plano
Copiar o plano alimentar de outro atleta, sem ajustar para o próprio peso, ritmo de suor e tolerância gastrointestinal, é receita para problemas. A nutrição para ultramaratonistas é uma ciência individual.
Atenção a casos específicos
Existem situações em que a estratégia nutricional exige cuidados extras. Alguns exemplos:
- Atletas com diabetes: precisam monitorar glicemia constantemente.
- ajustar insulina e contar carboidratos com precisão.
- Atletas com sensibilidade gastrointestinal: devem priorizar fontes de carboidrato de baixa osmolaridade e evitar lactose.
- frutose em excesso e gorduras durante a prova.
- Atletas veganos e vegetarianos: precisam garantir fontes adequadas de proteína.
- ferro.
- B12 e creatina.
- Atletas com histórico de anemia: ferro deve ser monitorado com exames regulares e suplementação quando indicada.
Em todos esses casos, o acompanhamento profissional faz diferença real.
Atenção: sinais de alerta durante a prova
Mesmo com um plano bem feito, o corpo pode avisar que algo está errado. Conheça os sinais que exigem parar ou procurar ajuda nos postos de apoio:
- Náusea persistente ou vômito que impede a ingestão de líquidos.
- Tontura.
- confusão mental ou visão turva.
- Câimbras severas e generalizadas.
- Dor de cabeça forte.
- especialmente acompanhada de sudorese excessiva ou ausência de suor.
- Urina muito escura ou ausência de vontade de urinar por horas.
Ultramaratona é sobre superação, mas também sobre respeito aos limites do corpo.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quantas calorias um ultramaratonista gasta em uma prova?
Depende muito do peso corporal, ritmo e duração, mas estimativas comuns ficam entre 4.000 kcal e 8.000 kcal para uma prova de 50 km, podendo passar de 10.000 kcal em provas de 100 milhas. Esses números mostram por que a nutrição durante a corrida é tão importante.
É possível treinar o estômago para comer mais durante a corrida?
Sim. O trato gastrointestinal pode ser treinado para tolerar volumes maiores de carboidrato, da mesma forma que os músculos são treinados para tolerar cargas maiores. Aumentar gradualmente a ingestão em treinos longos é a estratégia padrão.
Preciso usar suplementos caros para ultramaratona?
Não necessariamente. Muitos atletas terminam provas longas com alimentos comuns, como batata, arroz, banana e mel. Suplementos podem ajudar, mas não são obrigatórios.
Quantos litros de água devo beber durante uma prova?
A recomendação geral é ajustar pela perda de suor. A maioria dos adultos perde entre 400 mL e 800 mL por hora de corrida em clima ameno. Em provas longas, beber entre 400 mL e 700 mL por hora costuma ser um bom ponto de partida, sempre com reposição de sódio.
Vegetarianos e veganos conseguem competir em ultramaratonas?
Sim, com planejamento adequado. O desafio maior está em garantir fontes de proteína suficiente, ferro, B12, zinco e creatina, nutrientes importantes para endurance. Com acompanhamento nutricional, é perfeitamente possível performar em alto nível.
Conclusão
A nutrição para ultramaratonistas não é um detalhe a ser resolvido na semana da prova. É um processo contínuo, que começa meses antes com o ajuste da dieta diária, passa pelo treinamento do estômago e dos intestinos, evolui com a escolha dos produtos para o dia da corrida e termina com uma recuperação bem-feita nos dias seguintes. Quem entende esse ciclo completo costuma chegar ao final das provas em melhor estado, com menos sofrimento e com ganhos de performance mais sólidos.
Mais do que seguir uma fórmula pronta, o segredo está em testar, ajustar e ouvir o próprio corpo, sempre com orientação profissional. Com estratégia alimentar bem montada, o corredor descobre que a ultramaratona, embora seja dura, é uma experiência muito mais aproveitável.
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Referências consultadas
Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (SBME). Diretriz de Nutrição Esportiva. Disponível em: https://www.medicinadoesporte.org.br, Jeukendrup, A. A Step Towards Personalized Sports Nutrition: Carbohydrate Intake During Exercise. Sports Medicine. Springer. Disponível em: https://link.springer.com/journal/40279, Burke, L. M. et al. Carbohydrates for Training and Racing. Sports Science Exchange. Gatorade Sports Science Institute. Disponível em: https://www.gssiweb.org/sports-science-exchange, International Society of Sports Nutrition (ISSN). Position Stand: Nutrient Timing. Journal of the International Society of Sports Nutrition. Disponível em: https://jissn.biomedcentral.com, Casa, D. J. et al. Exercise and Fluid Replacement (Position Statement). ACSM. Medicine & Science in Sports & Exercise. Disponível em: https://journals.lww.com/acsm-msse
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Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Quantas calorias um ultramaratonista gasta em uma prova?
Depende muito do peso corporal, ritmo e duração da prova, mas estimativas comuns ficam entre 4.000 kcal e 8.000 kcal em provas de 50 km, podendo ultrapassar 10.000 kcal em provas de 100 milhas. Esses números explicam por que a nutrição durante a corrida é tão importante para quem compete em distâncias longas.
2. É possível treinar o estômago para comer mais durante a corrida?
Sim, é possível. O trato gastrointestinal pode ser treinado para tolerar volumes maiores de carboidrato, da mesma forma que os músculos são treinados para cargas maiores. Aumentar gradualmente a ingestão em treinos longos é a estratégia padrão recomendada por nutricionistas esportivos.
3. Preciso usar suplementos caros para ultramaratona?
Não necessariamente. Muitos atletas terminam provas longas usando alimentos comuns, como batata inglesa cozida, arroz branco, banana e mel. Suplementos específicos podem ajudar em alguns casos, mas não são obrigatórios para completar ultramaratonas com boa performance.
4. Quantos litros de água devo beber durante uma prova?
A recomendação geral é ajustar a ingestão pela perda de suor individual. A maioria dos adultos perde entre 400 mL e 800 mL por hora de corrida em clima ameno. Em provas longas, beber entre 400 mL e 700 mL por hora costuma ser um bom ponto de partida, sempre acompanhado de reposição de sódio.
5. Vegetarianos e veganos conseguem competir em ultramaratonas?
Sim, com planejamento nutricional adequado. O desafio maior está em garantir ingestão suficiente de proteína, ferro, vitamina B12, zinco e creatina, nutrientes importantes para endurance. Com acompanhamento profissional, é perfeitamente possível performar em alto nível.
Aviso: este conteudo e informativo e nao substitui orientacao medica ou nutricional profissional. Consulte um nutricionista registrado (CRN) ou medico antes de fazer mudancas significativas na sua dieta, especialmente em casos de doencas pre-existantes, gestacao ou uso de medicamentos.